terça-feira, agosto 27, 2013

Democracia, Poder Invisível e Transparência

No último dia 22, durante a palestra do deputado Protógenes Queiroz em Piracicaba/SP sobre o combate à corrupção no Brasil, aproveitei a oportunidade para provocá-lo sobre uma característica negativa da democracia moderna e, ao mesmo tempo, um dos instrumentos de corrupção: o Poder Invisível dentro das estruturas do Estado.

No clássico O futuro da democracia, Norberto Bobbio avaliou o atual regime político a partir da comparação entre a democracia utópica e a democracia real ou porque os princípios idealizados se transformaram em promessas não cumpridas. Considerando a finalidade da nossa discussão, destaquei três: a existência de corpos intermediários, a representação dos interesses e o poder invisível. Em minha opinião, os três fazem parte de um processo com cada um desempenhando uma etapa.

 A partir de uma abordagem liberal-individualista, imaginava-se uma sociedade na qual entre o povo e seus representantes não existiriam grupos particulares intermediários. Com o desenvolvimento da democracia, grandes organizações, associações, sindicatos, partidos políticos, entre muitos outros, assumiram importância dentro do processo de decisões políticas em detrimento do indivíduo ou do povo como unidade política.

Da mesma maneira, o princípio da representação política sempre foi um dos pressupostos da democracia. Por exemplo, independentemente de quantas pessoas ou qual grupo elegeu um vereador ou prefeito, depois de empossado ele deveria defender o interesse público ou de toda a coletividade. Entretanto, até em razão da sociedade policrática, identificamos atualmente mandatos vinculados a partir da representação de interesses dos grupos, quando não se limitam aos interesses particulares.

Por último, o poder invisível pode ser entendido como a coexistência de um poder paralelo e misterioso ocupado por grandes grupos econômicos e políticos. Alan Wolfe denominou esta particularidade de “duplo Estado” em seu livro Os limites da legitimidade. Mas segundo Bobbio, “a democracia nasceu com a perspectiva de eliminar para sempre das sociedades humanas o poder invisível”.

Os três paradoxos são conseqüências naturais da aplicação prática de uma utopia. Entretanto, no caso do poder invisível, fica a impressão da decisão política em relação à sua manutenção.

Em resposta, Protógenes evocou a filosofia hegeliana para lembrar a necessidade de equilíbrio entre interesses particulares e o interesse público, assim como defendeu que o poder invisível é natural. Transforma-se em um problema quando é utilizado para favorecimento ilícito ou para perseguir pessoas.

Concordo parcialmente. A democracia pressupõe a cultura do acesso, nada podendo permanecer em segredo, a condição para a manutenção do poder invisível. Segundo Kant em Paz Perpétua, um ato administrativo só não é suscetível de se tornar público quando conhecido estimularia reações da população que inviabilizariam sua realização. Essa é a explicação, por exemplo, para o descumprimento de muitas administrações públicas em relação à Lei de Acesso à Informação (LAI).

Finalmente, em uma democracia, a regra é a publicidade. O segredo é exceção. Somente a radicalização da transparência, da participação popular e do controle social pode enfraquecer a imoralidade do poder invisível e diminuir os espaços para corruptos e corruptores.




Ewerton Clemente é economista e servidor público